Uma das coisas mais legais que o Corre Mulherada nos trouxe foi a possibilidade de conhecer tantas mulheres incríveis, que nos inspiram todos os dias e que acabaram se tornando grandes amigas… E a Gabi Delgado é uma dessas pessoas especiais!  

A Gabi já contou aqui no blog como começou a correr. Agora, ela volta para dividir com a gente a experiência de ter participado da Volta à Ilha 2017, uma das provas de revezamento mais tradicionais do país, que aconteceu no último dia 8 de abril. 🙂

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Eu não sei precisar a data mas, ainda em 2016, fui ‘avisada’ pela minha ‘best’ que eu estava inscrita e intimada a correr a Volta à Ilha 2017. Nesse momento, as pernas tremeram, eu não conseguia nem responder, só conseguia pensar: Fo%$u! Aqueles que acompanham as provas de longo percurso sabem muito bem como é essa prova: 140 km com revezamento, em grau de dificuldade absurdo! Lá fui eu montar as estratégias com meu professor e dei início aos treinos. Foi aí que tudo começou.

Eu, particularmente, não sabia o que esperar da prova. Ouvia muitas coisas a respeito da Volta, mas realmente não fazia ideia do que me aguardava lá em Florianópolis. Foram meses de reuniões em equipe, instruções, planejamento dos trechos a serem percorridos…. Mas, como tudo que acontece às vezes não sai conforme o planejado, acordei doente na semana que antecedia a prova. Gripe, garganta inflamada e uma tosse horrorosa. Logo na segunda-feira, procurei um pronto socorro e expliquei a situação para o médico. Fui medicada e afastada do escritório, trabalhando apenas de casa para não ficar exposta ao ar condicionado para que meu quadro de saúde não apresentasse piora. E assim seguiu até a sexta-feira, dia do embarque para Florianópolis.

No sábado, ainda com tosse, dificuldade para respirar e um certo mal-estar, partimos às 4:30 da manhã para o local da largada, que aconteceu para a minha equipe de 8 corredores às 5:15 da manhã. Largamos! 17 trechos totalizando 140 km divididos em 8 corredores.

Sinceramente, só tinha fera correndo na minha equipe. Maratonistas experientes, atletas de triathlon, ou seja, só gente com currículo de dar inveja a muitos. Eu, uma mísera corredorazinha de final de semana, acima do peso, em condições de saúde não tão boas assim, “naqueles dias”, não sabia nem o que estava fazendo ali. Mas, como diz meu professor Eduardo Barbosa, missão dada é missão cumprida! Então lá fui eu para o trecho 3 da prova, Santo Antônio/Sambaqui até a praia da Daniela, 8 km de calçamento, barro, lama, pirambeira, subidas, descidas… Tinha até um trecho onde precisamos fazer uma travessia de barco.

Peguei o revezamento mais ou menos às 7 da manhã, debaixo de chuva. Esse trecho, embora classificado como moderado, foi de uma dificuldade extrema para mim. Corri 2 desses 8 km em um pedaço deslumbrante de praia, porém com certa dificuldade, mesmo correndo mais próximo ao mar, onde na teoria a areia é mais consistente. Com o dia já claro, dava para ir admirando a paisagem maravilhosa do litoral, amenizando o sofrimento da prova.

Depois do litoral, seguiram alguns trechos de barro e lama no meio da mata em uma estrada de terra. Por causa da chuva, havia muitos buracos. Todo cuidado era pouco para desviar das poças que poderiam ser buracos fundos em potencial, e nas descidas mais cuidado ainda para não escorregar e se machucar, pois mais para a frente eu ainda teria um trecho de 10 km no percurso 14.

Terminado o trecho de estrada de terra, transformada em lama, cheguei no ponto da travessia de barco. As opções eram banana boat ou lancha. Preferi atravessar para o Portal da Daniela de lancha pensando em não ficar exposta ao frio, já que chovia bastante e, na lancha, estávamos mais protegidos do vento direto no peito, ao contrário do banana boat, onde tomaríamos toda a chuva e mais vento, desaquecendo o corpo, causando um choque térmico quando voltássemos a correr.

Travessia feita, era só botar mais 2k na areia e entregar o trecho para a amiga que faria a sessão 4, largando da Praia da Daniela. Pela dificuldade do percurso, meu professor estimou que eu terminaria os 8k em 1 hora. Entreguei com 58 minutos. Me senti a Mulher Maravilha e fiquei toda orgulhosa ao passar a pulseira para a corredora do quarto trecho.

Entre os trechos 4 e 14, foram horas de espera e correria nos carros, ajudando na alimentação e hidratação dos amigos que estavam se preparando para os próximos trechos… Então, o cansaço foi batendo sem dó nem piedade! Rodar Florianópolis de carro, em um calorão que pegou ao longo do dia depois de muita chuva, se preocupando com o resto da equipe e de simplesmente não dar tempo de chegar no trecho seguinte antes dos corredores foi causando, ao longo do dia, um cansaço mental muito grande.

Consegui almoçar entre 2 e 3 da tarde, enquanto esperávamos a corredora que chegaria na Praia da Joaquina. Dali a quatro trechos seria a minha vez novamente, então me troquei e fiquei pronta, esperando. Quando partimos para a Praia do Arrastão, onde receberia a pulseira para o trecho 14, eu estava bem cansada. A essa altura, já tossia muito devido à gripe.

Peguei a pulseira da Luana e parti para correr os primeiros 2,5 km na areia fofa. Até tentei, mas os pés se enterravam na areia de uma forma que era impossível, para uma corredora no meu nível, correr naquela situação. Trotei… Ainda teria pela frente mais 7,5 km de asfalto, praia e rodovia.

Os trechos de rua e/ou rodovias não são interditados durante a realização da prova, então corremos 100% do tempo buscando espaço entre asfalto, calçamentos, guias, calçadas e sarjetas. Lá fui eu para mais 7,5 km de asfalto entre subidas intermináveis, curvas, carros passando em velocidade alta, motoristas buzinando para os corredores e pessoas olhando pra gente com cara estranha de “Que povo maluco! Eu, hein?”.

Faltando 1,5 km para acabar meu percurso, voltei novamente para a praia quando pensei: Não vou conseguir! Para minha alegria, a areia desse trecho era batida, o pé não afundava, mas já muito cansada, eu corria num pace pra cima de 7 minutos. Prossegui tossindo, com cólica e preocupada porque a pessoa que entregaria o Morro Maldito faria um trecho tão temido à noite. Pensei em andar, desistir… Chorando, fui me arrastando até que vi um atleta correndo o percurso ao contrário. Epa, peraí, é uma camiseta da minha assessoria!

O Guinther, um dos atletas da minha equipe que pegou o pior trecho da prova, voltava em sentido contrário para me buscar. Eu estava estourando o tempo de troca no posto 15, iríamos ser desclassificados, mas ele voltou 1,5 km em um pace de 4 minutos para me puxar. Eu já não conseguia enxergar mais nada, o suor se misturava com as minhas lágrimas. Eu o segui por mais 1 km num pace de 5 para menos, acredito eu. Mas, para o meu azar, quando chegamos o posto de troca já estava fechado. Outras duas corredoras do carro 2 também estavam me esperando.

Cheguei desanimada, engolindo choro, passando mal, com falta de ar, dor, tosse, branca. E muito chateada mesmo, pois havia comprometido o tempo da minha equipe. O trecho que estava previsto para completar em 1 hora, cheguei com 1h20m, e a corredora que faria o Morro Maldito já havia relargado.

Não sei se para meu alívio ou minha decepção, terminava ali minha primeira participação na Volta à Ilha, com o risco de ver minha equipe ser desclassificada. Fui atendida no carro mesmo, hidratada. Para nossa sorte, de 8 participantes da equipe, só eu não era da área da saúde. Além do Eduardo Barbosa, meu professor, os demais ou eram médicos ou eram dentistas, então estava em boas mãos.

Os corredores do meu carro decidiram não avisar ao carro 1 sobre o tempo que eu fiz naquele trecho e de que corríamos o risco de ser desclassificados, então só avisamos da minha chegada e da largada da corredora do trecho seguinte para não causar desconfortos na equipe. Ainda faltavam mais 2 largadas. Fomos para a chegada, onde esperaríamos a outra parte da equipe para finalizar a prova. Cruzamos a linha de chegada às 20:26, largando às 5:15 da manhã.

Ao sair o resultado durante a semana, não fomos desclassificados. Como diz minha best, #ChupaMundo. Ficamos em 168º lugar, com o tempo de 14h51m37s.

Eu poderia ter ajudado mais a minha equipe. Me senti muito mal por ter ficado doente às vésperas da prova. Me senti chateada, culpada e sem muito o que poder fazer. Muitas vezes, durante a semana, pensei em desistir, em não embarcar. Mas seria uma falta de consideração monstra se eu tivesse feito isso. Ganhei a inscrição de uma pessoa que é uma das mais importantes da minha vida, que sem querer ou querendo, me proporciona momentos incríveis! Quando acho que tudo está meio sem graça, vem ela e bota cor… Juliana Bueno, eu fiz o que pude, me esforcei ao máximo, dei o meu melhor. O meu primeiro e melhor trecho foi para você, para saber que eu, no mínimo, vou tentar não te decepcionar nunca. Obrigada por essa experiência incrível, acreditando em mim com tanta gente fera correndo junto. Obrigada. Obrigada, jamais saberei agradecer.

Resumindo, foi uma prova muito, muito difícil, mas missão dada é missão cumprida. Fui lá, corri os 18k que me foram atribuídos, com dor, com chuva, com tosse, com pirambeira, areia fofa, água, mar, sol, com tudo e todos os sentimentos possíveis e imaginários. Corri com atletas muito experientes, literalmente com gente grande. Dei o meu melhor, mesmo doente, mesmo desanimada, mesmo naqueles dias, mesmo com tudo isso. E mesmo que não fosse no rosto, corri com um sorriso no meu coração.

Gostaria de agradecer pelos momentos incríveis à minha equipe EduRun Off Road: Eduardo Barbosa, Camila Andrade, Camila Redondano, Marianne Sobral, Guinther Badessa, Luana Maris, Juliana Bueno. Obrigada pelo incrível final de semana que vocês me proporcionaram. Equipe forte, composta por 6 mulheres pica das galáxias, que não deixaram a peteca cair. Fomos mais que mulheres maravilha! Fomos a base, o sustento e a alegria da prova!

Ah, e só para dar um toque a mais, no segundo e mais difícil trecho, levei o #CorreMulherada comigo, como sempre, e em todas as provas!

A Corrida da Leitora é um espaço para compartilhar histórias, conquistas, superações, dicas e muito mais! Quer participar? Preencha o formulário e entraremos em contato.

Equipe 4any1 na Volta à Ilha (Divulgação)

Equipe 4any1 na Volta à Ilha (Divulgação)

No último sábado, 16 de abril, aconteceu a 21ª edição de uma das maiores provas de revezamento da América Latina: a Volta à Ilha em Florianópolis, SC. A prova dura o dia todo e passa por diversos tipos de terrenos (asfalto, areia dura, areia fofa…), com um percurso total de 140 km! Sem falar no calorão que fez no Brasil inteiro no último fim de semana. Não é moleza, não…

A 4any1, assessoria esportiva parceira do blog, participa dessa prova há 15 anos. Para 2016, eles montaram uma equipe para a categoria Aberta Mista mesclando alunos e professores, e uma das selecionadas para esse time campeão foi a querida Ana Rejane, que faz as aulas de Cross For Any Body comigo no Parque do Povo. E quando digo campeão, não é à tôa: a equipe da 4any1 foi a 8ª colocada entre 66 times da categoria, completando a prova com tempo total de 12h41min. Uau!

Lógico que pedi para a Aninha contar um pouco mais como foi participar desse desafio aqui no blog. Quem sabe você está pensando em encará-lo em 2017?! 😉 No final, ainda tem algumas dicas do nosso treinador Eduardo Barbosa para você se preparar e montar a sua equipe em provas de revezamento desse estilo.

A experiência da Aninha

Aninha preparada para a prova (Reprodução Instagram)

Aninha preparada para a prova (Reprodução Instagram)

Bom… Tudo começou em setembro de 2015, quando o meu treinador, Eduardo Barbosa, me fez o convite para participar da Volta à Ilha de 2016 em sua equipe. Achei que fosse brincadeira, mas aceitei e peguei firme nas planilhas de corrida e nos treinos funcionais para fortalecimento e resistência, o que me ajudou muito.

Faltando 30 dias, a ansiedade começou a tomar conta. Como quase toda mulher é ansiosa, tive também que fazer outro trabalho (de controlar a ansiedade!) para não estragar tudo. O marido resolveu me acompanhar para me dar um apoio, o que achei ótimo, e quando chegamos em Florianópolis eu não acreditava que era real. Sempre achei que fosse uma prova muito difícil e que não estivesse ao meu alcance. Era um sonho que estava realizando!

O meu primeiro trecho foi de asfalto (9,8 km), concluído em 55 minutos, com quatro subidas de matar. O segundo trecho foi areia fofa: 5,5 km debaixo de sol de 33 graus, às 13h30 da tarde. Insano e desumano. Concluí em 31 minutos.

Me senti tão realizada que faria tudo novamente. 🙂

Olha a medalha, que linda! (Foto da Aninha)

Olha a medalha, que linda! (Foto da Aninha)

Dicas do treinador para provas de revezamento

O Eduardo Barbosa é treinador de corridas da 4any1 e participa da Volta à Ilha desde 2010. Se tem alguém que entende os desafios dessa prova, seja como corredor, seja como treinador, é ele! “Uma curiosidade que, para mim, é o diferencial da prova é que em sua organização ela conta somente com profissionais de Educação Física, desde o presidente ao staff, composto por estudantes das faculdades da região”, destaca Edu. “Após três anos e boas colocações na categoria Participação, resolvi montar uma equipe que entraria na categoria Aberta Mista, que é onde a elite participa. Em 2014, conquistamos a quinta colocação, até então a melhor posição que uma equipe amadora e da assessoria alcançou na prova.”

Equipe da 4any1 em um dos pontos de troca (Divulgação 4any1)

Equipe da 4any1 próximo a um dos pontos de troca (Divulgação)

Só de ler sobre a prova, a gente já percebe que não é simples montar uma equipe e se preparar para ela. São muitos os detalhes que não cabem em um post só, mas pedimos para o Edu enumerar alguns tópicos mais importantes. Anote aí:

  1. Ao montar o time, é importante analisar o perfil de cada corredor convidado.
  2. Procure ter corredores com as mais diversas especialidades de terrenos e distâncias. Diversifique!
  3. Os corredores devem, obrigatoriamente, possuir uma característica-chave: saber trabalhar e correr em grupo.
  4. A vaidade, famosa entre os corredores, aqui não serve para nada. Você pode até ser fera no asfalto, mas correndo em dunas terá a mesma velocidade? Obviamente que não!
  5. Cuide da logística da prova. Carro principal e carro de apoio devem trabalhar juntos na distribuição dos atletas nos postos de troca. Na minha equipe, tive uma pessoa que não corria e era encarregada somente disso.
  6. Realize a distribuição dos trechos levando em conta as características do corredor, sua especialidade e também se tem resistência e perfil sociopsicológico para horas e horas de prova com dois trechos mínimos para correr, geralmente um pela manhã e outro à tarde.
  7. Tenha um líder para as tomadas de decisões importantes. Vale, inclusive, ter na equipe alguém que já fez a prova.
  8. O treinamento deve seguir uma periodização normal, especificando nas 16 semanas que antecedem a corrida. Procure treinar em terrenos parecidos aos que irá enfrentar e próximo dos horários em que você irá correr.
  9. Florianópolis é linda, mas terá melhor resultado a equipe que se concentrar para um melhor rendimento esportivo. (Ou seja, melhor deixar os passeios pela cidade para o pós-prova 😉 rs)
  10. Por fim, divirta-se – e muito! Esta prova é, por si só, desafiadora e está na lista das provas que se tem que fazer uma vez na vida se você gosta muito de corridas de rua, montanha e aventura, pois ela é tudo isso e muito mais!

E aí, deu vontade de encarar a Volta à Ilha ou outra prova de revezamento nesse estilo? Conta pra gente nos comentários! E se tiver dúvidas, pode perguntar que o Edu responde depois. 😉

Bons treinos e boas provas a todos!

post_parceiros_4any1_2015

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