Olá mulherada!

A Flavia já apareceu aqui no Corre Mulherada algumas vezes, uma contando sobre sua história na corrida e outra como é correr no frio. Hoje, ela nos conta sobre sua trajetória na meia maratona, distância que é a sua preferida!

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“Posso dizer que eu corro há uns 10 anos.

Tudo começou aos poucos, claro. De tímidos passinhos na esteira da academia, para um jogging mais ousadinho, até as corridas de 5km, depois de 10, 15 e 21km, muita coisa aconteceu.

Corri minha primeira meia-maratona há 2 anos. Antes dela, tinha corrido uma única vez 15km – e antes desses 15, eu tinha algumas corridas de 10km no currículo. O treino semanal não seguia disciplina alguma, e eu corria basicamente 5-7km cerca de 2 vezes por semana.

Meus tempos não eram nada impressionantes: eu fazia 5km em cerca de 32 minutos, às vezes até mais; 10km eram sempre por volta de 1h05m, e minha corrida de 15km antes da primeira meia-maratona tinha durado 1h41m.

Então há dois anos aconteceu minha primeira meia-maratona. Eu dei conta! Não caminhei, não parei, e cruzei a linha de chegada após 2h23m. Depois de 15km eu já estava em frangalhos. Foi uma luta suada, e eu posso dizer que venci. A atmosfera nas ruas de Copenhague era ótima e muito favorável, com torcedores e entretenimento ao longo de todo o percurso. Mas eu diminuí e em muito a minha velocidade à medida em que as minhas forças foram se esvaindo. De uma média de 6m30s por quilômetro, eu encerrei a corrida fazendo quase 8m por quilômetro.

Isso sem mencionar as dores pelo corpo todo depois da corrida. Se eu me sentasse, mal conseguia me levantar, de tanta dor na coluna e nas pernas.

Cerca de 6 meses depois dessa experiência, veio minha segunda meia. A diferença dessa para a primeira foi que eu agora já sabia o que esperar. Sabia o que vinha pela frente depois dos primeiros 15km. Não treinei de forma disciplinada, mas já vinha acumulando mais quilômetros por semana desde a primeira vez, e esse fato combinado com um lindo percurso me ajudaram a diminuir meu tempo e fechar a prova em 2h19m.

Mais seis meses e lá veio minha terceira meia. Minha meta era terminar em 2h15m, mas mais uma vez, não treinei para isso, e depois dos 15km tive que diminuir meu ritmo consideravelmente, e terminei a corrida em 2h18m.

Isso foi há exatamente um ano. Eu estava com 10kg a mais, e decidi que tentaria de novo em 6 meses (maio desse ano) – e que dessa vez certamente conseguiria terminar em 2h15m!

Comecei a treinar sério – era setembro de 2015. Assumi um compromisso de verdade comigo mesma, e juro que meu peso não entrou no contrato. Eu só queria ser mais rápida. Eu queria atingir minha meta. Eu queria me orgulhar de mim mesma. Eu queria vencer um desafio.

Os treinos incluíam correr pelo menos 3 vezes na semana. Uma corrida curta, uma mais longa no meio da semana e nos findis uma corrida longa. No início, corrida longa para mim era 10km. Eu começava na terça feira por exemplo, com 5km, depois 7-8km na quinta, e no sábado 10km.

Isso significava correr em qualquer situação climática! A partir de outubro as noites já eram super escuras, e em dezembro não apenas escuras, mas geladas. Eu não tinha escolha. Eu trabalho durante o dia, busco os filhos na creche/escola, não tenho empregada ou babá. Só posso sair pra correr quando eles já estão na cama. É correr ou correr.

Muitas vezes só conseguia sair pra correr às 9 da noite…. voltava cansada, gelada, às vezes molhada da chuva ou neve. Em muitos trechos o breu era tão grande que eu tinha medo de pisar num buraco (já resolvi esse ‘problema’ e comprei uma lanterninha de corrida, que a gente usa na testa).

Os meses foram passando e eu comecei a ver a recompensa do treino : as pessoas comecaram a notar, antes de mim mesma, que eu estava perdendo peso! Os elogios foram chovendo na minha horta. Isso me dava ainda mais motivação pra sair de noite pra correr, quando o cansaço e muitas vezes a preguiça mesmo, quase venciam.

Em maio de 2016 chegou a meia-maratona que mudaria a minha história! Eu estava correndo sempre entre 17-19 km aos fins de semana, e no último teste tinha feito 19km em cerca de 1h55m. Eu confiava que, se me dedicasse e encarasse como desafio, ia me superar e terminar a corrida em 2 horas! Não 2h15m como era meu plano inicial – mas em 2 horas! Parecia surreal – mas não era mais um sonho distante!

O dia da corrida chegou e estava perfeito… fui com uma colega do trabalho. A temperatura estava em torno de 15 graus e o céu estava meio nublado, mas o sol aparecia às vezes. Quando comecei a correr, me veio um misto de emoção, medo, apreensão, tudo aquilo que só quem corre sabe explicar 🙂 Me juntei aos pacers de 2h05m e lá fomos nós.

Pra mim, os 3-4 primeiros quilômetros são sempre os mais difíceis. O corpo ainda está frio, o pulso aumenta de uma vez, e você começa a suar. Por volta dos 5km o corpo já entrou num ritmo gostoso, você já encontrou seu passo, o corpo está aquecido, daí é mais ou menos colocar no piloto automático.

Eu senti logo nos primeiros quilômetros, que eu estava desenvolvendo uma velocidade interessante, e que eu conseguiria manter ao longo de toda a corrida. Mas não demorou muito e eu senti que o ritmo estava lento, e que eu certamente conseguiria dar uma acelerada. Saí ultrapassando outros corredores, uma delícia de sensação, e melhor ainda, deixei os pacers de 2h05m pra trás.

Fui vendo as placas anunciando a distância já percorrida: 5km….. 10km…. 15km. Hora da verdade. Era ali que anteriormente eu tinha sentido o peso da quilometragem me forçar a diminuir o ritmo. Mas não dessa vez! Continuei no meu ritmo constante, e segui em frente!

18, 19km. Um jato de adrenalina inundou meu coração e eu senti que poderia dar uma acelerada até o fim. Faltando 100 metros pra linha de chegada peguei uma garrafinha de água com alguém da organização e joguei na cabeça, tomei um banho que lavou a minha alma. Eu sabia que estaria quebrando meu recorde pessoal em 100 metros.

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Quando cruzei a linha de chegada, fui recebida pelo meu marido – que me fez uma surpresa, eu não sabia que ele estaria ali – e a minha amiga que foi comigo (e acabou antes de mim). Ali me entreguei ao cansaço e à euforia, e corri pra entrar no app da organização e descobrir meu tempo oficial!

Quando ele finalmente ficou disponível, mal pude me conter – tempo oficial: 2h00m49s!!!!!

Era muito melhor do que eu tinha imaginado. Aqueles 49 segundinhos quase me irritaram, mas gente – eu tinha melhorado 18 minutos em 6 meses! 18 minutos e 10 quilos a menos no meu currículo!

Agora o sonho e o próximo objetivo já estavam claros e muito palpáveis – mais 6 meses de treino e disciplina, e eu terminaria a próxima meia-maratona de Copenhague, em setembro de 2016, abaixo de 2 horas.

Segui treinando pela primavera e pelo verão europeu. Eu sabia que seria difícil. Que eu teria que correr no meu limite. Que uma coisa era manter o ritmo acelerado durante 5km…. outra bem diferente, era me manter abaixo de 5m40s por quilômetro durante todos os 21,1km da corrida.

O dia da meia chegou e lá fui eu! A meia mais animada e bem organizada de que já participei ou ouvi falar! Clima de festa e 22 mil corredores se aquecendo, familiares, amigos e demais entusiastas com buzinas, confetti, faixas, enfim. Muita música animada, e lá vamos nós!

Fui seguindo os pacers de 2h00m pelos primeiros 11 quilômetros. Passamos por diversas zonas de diferentes músicas: banda de rock, dj’s, trio elétrico (de música eletrônica rs), coral, até samba. De repente uma visão que me encheu de adrenalina e energia… uma pessoa da torcida agitando a bandeira brasileira! Era como se eu tivesse precisando daquela motivação. Respirei fundo, dei tchau pros pacers de 2 horas e disparei na frente deles.

Vez ou outra eu dava uma olhadinha, pra confirmar que os balõezinhos amarelos dos pacers tinha realmente ficado pra trás. Eu sentia que estava dando o melhor de mim naquela corrida, e que eu teria forças pra manter o ritmo até o fim. Isso não significava que seria menos extenuante. Eu estava cansada. Mas determinada!

Quando avistei a placa sinalizando 21km, me emocionei e não quis nem saber o que os outros poderiam pensar. Comecei a gritar: Linha de chegada! Tá chegando! Minha respiração estava tão ofegante que uma mulher um pouco à minha frente se virou pra mim e disse: Você consegue! Vamos lá! Tive a maior vontade de abraçá-la, mas acho que ela teria achado estranho 😝

Quando cruzei a linha de chegada, com os braços pra cima que nem jogador de futebol, só pensava em beber muita água e receber minha medalha. Eu nem pensava em conferir meu tempo oficial, porque eu sabia que tinha quebrado meu record.

Quando encontrei meu marido (que também participou da corrida), foi ele que me deu a notícia: 1h58m52s.

Próxima parada: Maratona Nice-Cannes em Novembro 😊”

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[Leia a parte 1 aqui]

Na semana que antecedeu a W21K Asics, senti uma ansiedade comparável a de poucos momentos da minha vida – como quando prestei vestibular, encarei uma entrevista de emprego de 40 minutos em inglês e casei. Deu para entender como eu estava, né? Hahahaha… 😉

Eu sabia que era normal, afinal, tinha a companhia de algumas amigas que também iriam estrear nos 21k na mesma prova e estavam tão ansiosas quanto eu. E pude contar com pessoas experientes em meia maratonas para me ouvir e me aconselhar diante de todos os meus anseios, justificados ou não. 😛 Isso não me impedia, contudo, de ficar frustada por estar tão ansiosa. “É só mais uma prova, é só ir lá e correr”, repetia para mim mesma, como um mantra.

A mudança para o horário de verão não foi um problema. Quatro horas da manhã (do horário novo) eu já estava acordada. Cheguei na USP quando ainda estava escuro, com aquela vontade doida de, finalmente, ir lá e correr. Como combinado, encontrei com a Gabi, a Claudia e a Juciara na arena e fomos juntas para a largada. Resolvi correr ouvindo música e preparei uma playlist com meus episódios favoritos do podcast do Ronaldo Gasparian. A contagem regressiva terminou, balões subiam ao céu e os pelotões avançavam. Gabi me mostrou seu braço arrepiado e fiquei com vontade de chorar, mas segurei a emoção para me manter focada na prova.

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Com Gabi e Clau pouco antes da largada

Se no ano passado a W21K aconteceu em uma manhã nublada com termômetros entre 18 e 20 graus, o último domingo prometia céu aberto, com o sol queimando a mais de 30 graus. Isso já tinha sido motivo de uma longa conversa com a Mari na semana anterior, quando discutimos estratégias de prova para dias quentes (ela enfrentaria um desafio ainda maior, correndo a Meia Internacional do Rio com largada às 8h30 da manhã). A princípio, eu queria fazer uma prova progressiva, tentando aumentar o pace a cada 7 km. A sugestão da Mari era o contrário, que eu acelerasse no começo, quando a temperatura estaria mais baixa e eu renderia melhor.

Nos primeiros quilômetros tive a companhia da Clau. Fomos conversando e, quando me dei conta, estava correndo mais rápido que o pace que pretendíamos. Lembrei da sugestão da Mari e, já que estava confortável, segui o que meu corpo pedia. Acabei me distanciando das meninas, mas esses minutos que ganhei no começo da prova foram fundamentais lá no final. No primeiro cotovelo, quando nos cruzamos no km 4, trocamos sinais de que estava tudo bem. Cruzei também com a Aline, que corria os 10k, e vi no rosto dela aquela expressão que mistura alívio e alegria ao ver que tudo está acontecendo conforme o previsto. Isso me deu ainda mais confiança.

O primeiro terço da prova passou que nem vi. Na altura do km 8, reencontrei a Claudia, que tinha se empolgado e estava mandando ver. Tentei acompanhar, mas o calor começava a dar as caras e precisei diminuir o ritmo para um pace mais confortável para mim. Não via a hora de voltar para a USP, não só porque seria a segunda metade da prova, mas porque lá teria árvores!!! Hahahahaha…

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Entrando na USP para a segunda metade da prova (Foto: Cristiano de Lima/PopCorn Run Brasil)

Eu tinha esquecido totalmente que correríamos na Avenida Politécnica. Do km 12,5 ao 16 não havia quase nenhuma sombra e foi, de longe, o trecho mais duro da prova para mim, mesmo sendo plano. Eu já havia jogado muita água no corpo e até gelo nos pontos de hidratação, mas ainda assim o sol castigava. Foi quando me rendi e tirei a regata do CM para correr só de top, mesmo com as gordurinhas balançando. Quem se importava? No retorno da avenida, a Gabi vinha no sentido oposto também correndo de top. Comecei a rir sozinha – minha profecia do ano anterior se cumpria! 😛

Também foi nessa hora que me lembrei da Mari, mais uma vez. Ela trabalha ali perto e, por muitos anos, quando eu também trabalhava por ali, tivemos almoços animados com a Pri no McDonald’s que fica no final daquela avenida – em uma época em que nem imaginávamos que um dia estaríamos correndo, quando mais meia maratonas! Pela hora, ela já teria largado no Rio e aí me veio na cabeça algo que a Mari sempre diz: quando ficar difícil, corra cada quilômetro com uma pessoa que você gosta.

Comecei a listar mentalmente com quem eu correria aqueles últimos 7 kms. E bem nessa hora começou a tocar nos fones This One’s For You, do David Guetta – poderia ser mais perfeito? Enquanto ouvia a Zara cantar “Estamos nessa juntos, ouça nossos corações batendo juntos, nos manteremos fortes juntos… essa é pra você!” recuperei minhas forças e segui rumo à USP, rumo à sombra e ao pórtico de chegada.

Faltava pouco para a placa dos 17 km, a maior distância que eu havia percorrido até então, e aquela vontade de chorar voltou com força. Eram os quatro quilômetros que faltavam entre eu e a minha primeira meia maratona! Mas vocês já tentaram chorar enquanto correm? Não dá! Hahahahaha… Parece que você vai sufocar. O choro entalava na garganta e, entre chorar e correr, fiquei com a segunda opção.

Sempre detestei percursos com vários “cotovelos”, mas aqueles retornos nos últimos kms lá na USP tiveram uma vantagem e tanto: pude cruzar com várias amigas nesse finzinho de prova. Fiz high-five com a Ju Bueno e a Clau, comemorei quando vi que a Juciara tinha recuperado o ritmo e já estava lá na frente, cruzei com a Gabi e gritei apontando para o relógio “vai dar, vai dar!”. Hahahahaha…

E deu, estávamos quase lá! As placas indicavam os metros finais: 500… 400… 300… Como sempre, o Cris fotografava nossos momentos como só ele sabe fazer (procurem suas fotos no Foco Radical com a descrição POP16W21K). Agora era só entrar no Cepeusp e correr os últimos metros na pista de atletismo.

Tô derretendo, mas tô chegando! rs (Foto: Cristiano de Lima/PopCorn Run BR)

Tô derretendo, mas tô chegando! rs (Foto: Cristiano de Lima/PopCorn Run BR)

Nem senti a subidinha do Cepeusp e quase caí na pista tamanha empolgação! Hahahaha… Chegando vi o relógio, soube que tinha feito a prova em menos de 2h40 (deu exatamente 2h35min08s no tempo oficial) e comecei a pular comemorando antes mesmo de cruzar a chegada. O Zé estava me esperando na grade, junto com a Aline e o Beto e eu tentava organizar o corpo e a cabeça. Calor, calor, calor… Eu precisava de uma sombra, mais que qualquer coisa!

Pegando a medalha me dei conta que, diferente do ano anterior, não teríamos o colarzinho de recordação da prova. Que pena! Recebi o lanche, o isotônico, o sorvete, mal cabiam as coisas nas mãos, e fui para a primeira sombra que encontrei. Ainda estava processando aquilo tudo, tantos sentimentos… Foi quando a Aline chegou com uma caixinha nas mãos e disse: você sabe que a Mari queria muito estar aqui, então ela te mandou um presente. Abri e era uma colarzinho com dois pingentes: um tênis e uma medalhinha de 21k. Comecei a chorar, claro!

Tenho ou não tenho as melhores companheiras de blog?! 😉

Aos poucos as meninas foram chegando, conversamos, celebramos, tiramos fotos, levamos nossas medalhas para gravar… Não foi uma prova fácil, mas toda a nossa preparação, dedicação e, acima de tudo, toda a nossa paciência compensaram! rs

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Merecida e tão aguardada medalha!

Depois da prova… Bom, tem sim um depois! Mas esse vai ficar para outro post porque este aqui já está enorme!!!

Obrigada a todas vocês que me acompanharam, me deram força, me deram tchauzinho antes, durante e depois da prova. Como dá para perceber, fez diferença sim!