Mais uma parte de relatos desta prova incrível que é a UAI, a Ultramaratona Internacional dos Anjos, que acontece todo ano em Minas Gerais, na região de Passa-Quatro. Se você não leu a primeira parte, clique aqui.

A Adriele, nossa amiga e leitora, fez parte da equipe de apoio da Fabiola Otero, ultramaratonista fodástica que não só correu a distância mais difícil da UAI (que já é uma p*ta prova), como dobrou a mesma! E hoje ela traz os relatos de parte da equipe que dividiu o apoio com ela e da própria Fabiola sobre essa grande conquista.

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UAI por Pricilla Lopes
Equipe de apoio

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Em menos de 2 anos, uma pessoa que não gostava de corrida (mas sempre amou esportes), iniciou treinos em uma assessoria esportiva, começou a correr, fez algumas provas, pegou gosto por correr em montanhas, trilhas, por acompanhar e fazer apoio de outros atletas da assessoria e, em julho, participou de uma grande “loucura”: ser apoio de Fabiola Otero no desafio de dobrar a UAI. A pessoa: eu. O motivo para participar: acreditar no sonho da Fabiola, acreditar que ela é capaz disso e muito mais e, claro, o meu amor pelo esporte.

É muito difícil explicar aqui sobre a experiência vivida. Em poucas palavras, impossível! Ainda mais, sabendo que muitos sequer tem noção do que é uma ultramaratona, do que é ser ultramaratonista, quiça do que é ser um apoio. Mas vamos tentar.

Para ela, não bastaria simplesmente completar essa prova. Para ela, não seria suficiente percorrer 235km. Ela queria mais. Ela podia mais. Ela pode ainda muito mais. Para Fabiola Otero, dobrar a UAI era a meta. Para Fabiola Otero, dobrar a UAI aconteceu.

Segunda-feira, dia 27/06, 08h. Fabiola e seu apoio: Carlos, Laura, Adriele e eu, Priscilla. Começou a primeira parte da jornada. Foram 55 horas até cruzarmos, pela primeira vez na semana, a linha de chegada. O “tema da vitória” só deixou mais emocionante o momento, que já existia desde o início e se aflorou principalmente nos últimos 15km. Muito frio a noite, praticamente 2h30 de sono (e se chegou a isso!) durante o período todo, sustos pelo caminho, mas também muita diversão. Equipe unida e em sintonia. Fabiola e seu dom de percorrer quilômetros, como se estivesse apenas no aquecimento. Tudo perfeito!

À noite, um bom vinho para brindar a primeira etapa e a “despedida” de parte da equipe. Laura e Adriele seguiriam, no apoio de atletas dos 95k e correndo 25k, respectivamente.

Durante um dia e meio, nos recuperamos. Ou tentamos. Ou, simplesmente, recarregamos as energias com o restante da equipe que chegava e outros atletas.

Sexta-feira, dia 01/07, 08h. Fabiola e seu apoio: Carlos e Leandro iniciaram a etapa final. Marina e eu nos juntaríamos a eles a partir dos 95k, em Aiuruoca. E é a partir deste momento que continuo o relato. Sábado, 05h30, Fabiola e Carlos iniciam a subida para a Cachoeira dos Garcia. Eu, Leandro e Marina, demos a volta para encontrá-los pouco antes dos 135km. Ali, já estaríamos com mais de metade da prova. Com mais de 3/4 do desafio. Daquele momento em diante, era administrar, não só a ansiedade, mas principalmente o cansaço, que já batia. Conseguimos manter um bom ritmo, mas precisamos parar um pouco mais do que na primeira etapa. Mas, não era qualquer um que ali estava. Era ela. Fabiola!

Sono? Cansaço? Fome? Dor! Pára! Ela estava chegando! No início da noite, recebemos a visita surpresa do melhor amigo da Fabiola, Xixo, que estava fazendo apoio do Portuga, da Assessoria Carlos Mello (juntamente com Rodrigo, conquistaram o 2º lugar de Duplas) e Adriele. Deu um ânimo extra. Dormimos um pouco depois. Acordamos e seguimos viagem. Repito: Sono? Cansaço? Fome? Dor! Pára! Ela estava chegando, cada vez mais perto! E ainda tínhamos mais uma surpresa pela frente. Ligamos para outro pessoal da Assessoria, que tinha ido para ver a chegada. Pedimos a eles para nos encontrarem pelo caminho. Mais uma injeção de ânimo, nos acompanharam durante os últimos 14km. E bora. Faltava pouco. Metro a metro sentindo aquele alívio. A certeza que já tínhamos desde o início estava mais aparente. Ela vai conseguir. Saímos das montanhas e entramos na cidade. O chão de paralelepípedos só indicava que em poucos metros ela completaria seu desafio. As setas amarelas, que desde às 8h do dia 27/06 nos acompanhavam, estavam acabando… Dos 470km que tínhamos pela frente, restavam pouco mais de 500 metros. E mais uma vez, o “tema da vitória” tocando alto. Corremos para abrir alas para ela: Fabiola Otero! Ela chegou!

Alívio! Alegria! Felicidade! Emoção!

Acabou! Acabou! Acabou??? Duvido! Logo logo, tenho certeza que ela inventará mais um desafio! Por que, para ela, nada é impossível. Para Fabiola Otero, é só mais uma etapa vencida!

Muitas histórias ficaram para trás, por esses 470km! “If your dreams don’t scare you, they aren’t big enough”

UAI por Laura
Equipe de Apoio, fisioterapeuta

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Adoro fazer apoio em provas de ultramaratona, a princípio não iria fazer parte da equipe da Fabíola porque não conseguiria ficar sem trabalhar nos dias da prova, no final das contas deu tudo certo e consegui me dar uma folguinha. Se é que ser apoio pode ser chamado de folguinha.

Carro pronto, mantimentos, kit de primeiros socorros, roupa de corrida (porque apoio inclui correr também) para calor e frio, pois é, ainda mais essa, era necessário a roupa para cada estação, imagina um calorzinho de 24 graus e um frio de 6 graus no mesmo dia. Tudo pronto e vamos nessa!

E começam os primeiros quilômetros, todo mundo na empolgação. Na primeira perna estávamos: o chefe de equipe Carlos Mello, que conhece seus atletas como ninguém, assim como o momento certo de hidratar, comer, alongar;  a rainha do apoio, Priscilla Lopes, um exemplo de organização e alegria, quando o atleta precisa de algo, é só pedir que já está na mão; Adriele, a novata da turma, porém de igual importância para a equipe, pois se mostrou uma pessoa extremamente prestativa e cuidadosa com nossa grande atleta e toda equipe; eu, Laura Uehara, a fisio da galera e claro não podemos esquecer da nossa grande e querida atleta, Fabiola Otero, a vencedora desse grande desafio.

Passamos por cada paisagem linda, um dos motivos de estar no meio da ultramaratona são as paisagens, e o céu? Ah, o céu! Um céu estrelado demais, dá pra esquecer da vida. Mentira, não dá não, porque o céu é lindo mas o frio corta a pele, rs. Confesso que lidar com o frio foi algo bem difícil pra mim. Mas voltemos à nossa atleta, ela fez essa primeira volta super bem, enfrentando as pirambas que a UAI (Ultramaratona dos Anjos Internacional) nos proporciona, e como sobe a nossa fusquinha (pois é, chamamos a Fabí de fusca, porque a bicha aguenta cada tranco que só fusca aguenta).

Como nessa primeira perna não era oficial, tivemos a oportunidade de subir até a cachoeira dos Garcias e fomos agraciados com o nascer do sol. Eita, lugar lindo demais, simplesmente um lugar que Deus colocou seu dedo e o homem não destruiu. Um céu azul, com as nuvens desenhadas e as montanhas dando o ar de sua graça e de fundo uma bela cachoeira. Que vista linda!

E os quilômetros foram se passando, a todo momento tinha uma pacer com ela. Nós passamos cada aperto, mas superamos tudo isso e amamos cada minuto, acho que as pessoas devem achar que somos loucos, mas essa loucura nos faz tão feliz! Quando estávamos em São Lourenço, um cachorro, o chamamos de Faísca, começou a nos acompanhar e foi até Passa Quatro, um verdadeiro companheiro. Infelizmente nossos caminhos tomaram rumos diferentes, mas ele estará sempre em nossas memórias. Ele nos acompanhou por mais ou menos 80km.

Estávamos com uma planilha para terminar a prova em 58h, conseguimos fazer em 55h. Exaustos, mas felizes e ainda teria mais uma perna. Eu sairia de cena, porém faria apoio dos atletas de 95km um dia e meio depois.

Foi uma experiência e tanto participar de parte desse sonho dessa grande pessoa que tenho a honra de chamar de amiga. Querida Fabíola Otero Falanghe, obrigada por deixar participar desse pedaço de sua vida!

UAI Por Marina Mello
Equipe de apoio

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“E se por um só dia você conseguir ser inspiração para alguém, todo o esforço já terá valido à pena”. – ELA me inspirou sem saber. Alguns anos atrás, quando eu era extremamente sedentária e sofria pra conseguir correr meus 5 km participei como apoio de uma prova em que a atleta Fabíola Otero estava…Modalidade: Ultramaratona. Prazer, Marina. Nem sabia que humanos seriam capazes de correr mais do que 1 maratona = 42 kms. Ela estava ali correndo 217 km assim como o atleta que eu estava apoiando. Cruzei com ela algumas vezes durante a prova e pude observar sua força, sua tranquilidade, seu semblante de coragem e foco. Aquilo me tocou… ver uma mulher com tanta garra encarar aquele desafio sorrindo, incentivando os outros atletas, me transformou. Saí dali com 2 presentes: ter conhecido essa atleta e ter decidido mudar minha vida e deixar o sedentarismo de vez para trás.

Passados alguns anos, nos conhecemos em uma corrida, ela veio treinar funcional com meu marido e nos aproximamos. ELA e sua generosidade. Em 2016 ela voltou no tempo e nos ajudou a fazer um quarteto na temida ultramaratona que já fez tantas vezes sozinha, aquela ULTRA que fui apoio, e que um dia pretendo fazer solo. ELA comprou o meu sonho e fará uma dupla comigo ano que vem e eu tive a honra de ajudá-la a realizar seu sonho: DOBRAR OS 235 KM DA ULTRAMARATONA DOS ANJOS.

Esse ano foi muito difícil pra ela com a perda da irmã, a luta diária… ela se doou para cuidar da Fabiana assim como se doa para ajudar amigos a realizar sonhos. ELA é um ser humano ímpar, único. Não medi esforços para fazer esse sonho acontecer e quando estávamos lá, na última volta, correndo juntas, passou um filme na cabeça… daqueles lindos, com uma paisagem incrível ao fundo, em que você olha e nem precisa dizer uma só palavra porque o olhar já diz tudo, agradecimento, gratidão, felicidade, realização, amor e amizade. E assim fomos juntas. Pude testemunhar dessa vez de outro ângulo o tamanho da força dessa mulher. Focada, mas acima de tudo feliz por viver algo único fazendo o que mais ama: correr.

Sempre digo e repito que a Fa me inspira a dar o melhor de mim… diariamente aprendo com ela a ser uma atleta dedicada, disciplinada e acima de tudo com extrema humildade. Espero conseguir inspirar cada vez mais atletas e pessoas como ELA faz, sem intenção, sem programar nada, apenas sendo ELA. Esse ser humano incrível que tive o prazer de conhecer. Meu fuka bala.

Faltou uma parte dedicada ao MAESTRO Carlos Mello – ELE. Treinador carrasco, cobra, incentiva, judia, bate e assopra. Mas tem uma capacidade única de tirar seu melhor de você mesma, de fortalecer sua mente, de guiar você através do caminho que levará você a vencer qualquer que seja o desafio que se propôs. Ele regeu uma equipe gigante de apoios com excelência. Fez diversas funções, foi pacer, apoio, treinador, cozinheiro, motorista, piadista, deu broncas… mas acima de tudo CUIDOU. Cuidou da nossa guerreira como poucos fariam… comprou o sonho e se jogou nele como se fosse seu. Não fraquejou, não desanimou, não reclamou, apenas fez. Fez TUDO o que estava ao seu alcance e além.

Amor, você tem meu respeito e admiração incondicional por ser essa pessoa que é, com esse coração maior do que o seu peito e por ser esse profissional ímpar por fazer com maestria o que ama.

Agradecimentos por Fabíola Otero
Atleta que dobrou a distância mais dura da prova, 235km, totalizando 470km rodados em 7 dias.

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O que dizer depois de completar 470km: foi bom, ótimo, sensacional, fantástico, incrível? Mas essas palavras todas não são realmente suficientes para expressar o que senti ao realizar esse sonho.

Foram sete dias de encontros, descobertas e sensações, que jamais esquecerei.

Encontros… com Deus, comigo mesma, com minha irmã, com minha alma, minha essência.
Descobertas… de amigos eternos, que sem eles nada disso teria sido possível, amizade infinita, cumplicidade e paixão.
Sensações… de que somos capazes de tudo, basta nos respeitar, conhecer, lutar, dedicar e alcançar.

Minha paixão pelas ultras, vem de anos, minha identificação com essa modalidade onde corremos e caminhamos. Mas, muito mais que isso, descobrimos nosso verdadeiro eu, nossa humildade, nossas fraquezas, nossas dificuldades e passamos a olhar o mundo com outros olhos. Olhos de amizade, companheirismo, tolerância, paciência, compaixão, beleza e descobrimos que somos felizes com muito menos.

Quando a dor, o cansaço, o frio, e o calor me alcança, lembro que atrás de tudo, existe a paixão. Paixão essa, que mobiliza pessoas maravilhosas a se dedicarem a um único objetivo… me fazer seguir em frente.

Minha amiga Adriele Gonçalo, responsável pelas redes sociais, um anjo de menina, dedicada e preocupada, deslumbrada com a paisagem, com o percurso, com a dinâmica e mais que isso, apaixonada pela montanha. Passou alguns perrengues, pois como todos sabem sou a rainha do tombo, e fui cair exatamente quando ela me apoiava como pacer (não sabia se chorava ou se me ajudava). 😛

Priscila Lopes, o que dizer… Uma garota fantástica, não mediu esforços para me confortar durante o nosso percurso, conversávamos muito, ligávamos para amigos durante a prova, tirávamos fotos no escuro, apagávamos a lanterna para ver as estrelas… que lindo!! Um céu iluminado por estrelas. Sempre disposta, dia e noite incansável, até quando as vacas e os cavalos vinham atrás de nós! 😛

Laura Uherara fisioterapeuta, um encanto, uma fada como a chamam… um ser humano na sua essência. Apareceu em minha vida para me ajudar,  e ajudou uma pessoa que amo muito, soube como poucas acalentar meu coração e minha alma.

Nesta jornada estava sempre pronta a colocar meu corpo em ordem. Suas mãos delicadas sempre prontas a me ajudar nas piores horas. Corremos por várias horas juntas, quase não enxergávamos nada, por causa da névoa que havia na noite, mas foram momentos incríveis. Momentos que cada uma de nós vai guardar no seu íntimo!

Leandro Rovai, o urso, como é chamado. Um menino de ouro, sempre pronto, com ele muitos perdidos, pois no meio da segunda volta nos perdemos por uns 6km 😛 (imagina duas pessoas, às 18h30, sem colete, sem lanterna) deixando nosso carro de apoio louco atrás de nós. Correu sua maior quilometragem (33km) e ainda foi promovido de motorista para pacer.

Não poderei deixar para traz, meu carrasco favorito Carlos Mello, um maestro impecável, que soube orquestrar sua equipe com muita responsabilidade, estratégia, cuidado e sabedoria. Um homem, um profissional, um amigo, um companheiro que agarrou meu sonho e o fez realizar. Para você sem palavras, serei eternamente grata. Passamos muitas horas juntos e descobrimos a importância do ser humano na sua mais pura essência, onde estamos desarmados. A cada amanhecer tínhamos a certeza absoluta de onde queríamos estar! PRA VOCÊ MEU MUITO OBRIGADA!

Marina Mello ou primeira dama… fiquem à vontade! o que dizer então dessa MULHER. Deus me colocou na sua frente no momento mais difícil da minha vida, e ela me confortou e amparou por várias vezes.

Seu colo, seu carinho, sua amizade ficarão para sempre. Passamos momentos inesquecíveis, por mais de 6 horas, onde ela incansavelmente depois de correr seus 95km, achou força e energia para me apoiar. Durante nosso percurso, passou alguns perrengues, pois quando estava com sono, ela dizia acorda e batia nas minhas costas. Cantamos para felicitar o dia, a vida, o mundo. TE AMO MARINA MELLO.

Meu outro amigo-irmão XIXO, o homem que nos últimos 6 anos, vem me acompanhando nas aventuras que me proponho a fazer. Meu braço direito, esquerdo, minha mente. O homem responsável pela estratégia, sem ele seria impossível. Este ano não esteve ao meu lado, por que foi acompanhar dois monstros da ultra Ricardo Campos nosso Portuga e o Rodrigo Costa que enfrentaram um dupla na serra da Mantiqueira com 235km e chegaram em segundo lugar. Orgulho de vocês!

Mas as emoções não ficaram por ai, ao longo do percurso, tive várias surpresas e uma delas foi a equipe da assessoria Carlos Mello que apareceu no meio dos meus últimos 33km para emanar força e energia. Cris Uherara, Piero, Gabi Kita. Vocês foram f…..!

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Nós do CM parabenizamos essa atleta incrível que é a Fabiola e toda sua equipe maravilhosa! Vocês são o máximo e é uma honra para nós compartilhar essa conquista tão emocionante! Parabéns a todos! <3

Hoje começamos um relato diferente da prova UAI, a Ultramaratona Internacional dos Anjos, que acontece todo ano em Minas Gerais, na região de Passa-Quatro, a Adriele, leitora e amiga querida participou da prova como apoio da atleta Fabiola Otero, que não só completou a distância mais difícil, mas dobrou a mesma! Mas não vamos entrar em detalhes… deixo pra Dri e para cada um dos participantes desta imensa conquista relatarem para vocês! 😉

Só podemos antecipar que vale muito a pena ler sobre a conquista da Fabiola e ficar com vontade de fazer parte de uma UAI, seja como apoio ou correndo. 😉

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Olá, meninas! Sou a Adriele e vou contar como foi minha experiência na UAI. 😉

No dia 01/07, aconteceu  a Ultramaratona Internacional dos Anjos em Passa-Quatro, a prova é realizada em estradas de terras encravadas pelas montanhas de Minas Gerais. Uma verdadeira expedição pela Estrada Real. Uma das poucas provas brasileiras de ultramaratona, que qualifica para Mont Blanc com 6 pontos (a meca das corridas de montanha).

A UAI tem as distâncias de 25km fast, 65km easy, 95km medium, 135 km hard e 235km x-hard e é realizada pela UltraRunner. A Fabiola Otero, uma grande amiga, gosta de aventura sem limites e o sonho dela era dobrar os 235km x-hard da UAI. Logo, o desafio era fazer 470km em 7 dias. Para tal feito, foi necessário ajuda financeira de empresas (Bananinha Paraibuna, Nasdaq, Overseg, Assessoria Carlos Mello, Umey e Zion) e amigos que compraram quilômetros. E também foi necessária uma equipe de apoio (o pessoal que acompanha o atleta por muitos kms, sabe a hora de hidratar, alimentar, incentivar, elogiar e também dar bronca, a hora de descansar… E também divertir o atleta).

E aqui abro um parênteses…  “O ultramaratonista e seu apoio passam vários dias sem dormir, sem comer direito, enfrentando frio, calor, chuva, lugares estranhos, montanha, trilha, barro, areia, asfalto, subidas intermináveis, descidas desgastantes. Sim, e o apoio também acompanha o atleta correndo (para quem não conhece, esse é chamado de Pacer)”.

Feitas algumas explicações, vou contar como foi a minha experiência como apoio, mas também a de todos que participaram do desafio da Fabiola. Seria impossível contar a transformação individual de cada um contando só a minha versão, então resolvi compartilhar a visão da atleta Fabiola e do apoio.

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UAI por Carlos Mello
Equipe de apoio e treinador

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Não sou muito de escrever relatos sobre provas, principalmente por ser um cara que vive mais do que conta o que viveu, mas vamos lá.

No final de 2015 fui surpreendido com uma decisão de uma amiga que era de dobrar uma das Ultramaratonas mais difíceis do país. Estávamos eu, Fabiola Otero e minha esposa Marina em casa quando veio o o desafio e o olhar de PQP essa mulher é doida, rs. 😛

Eu que gosto pouco de desafios estava pronto para tornar aquilo que achei doido, possível. Como treinador, tenho um dilema: Se você realmente quer, tenha certeza que é possível! Conhecendo quem é Fabiola e acompanhando tudo o que aquela mulher guerreira, determinada, humilde e principalmente uma das atletas que mais inspiram não só pelos feitos, mas por ser a ultramaratonista que conheço mais humana, caridosa, amiga que se abdica do que tem para confortar seja lá quem precisa, eu tinha certeza que seria possível.

O papel da equipe de apoio funciona exatamente como uma equipe de F1. O atleta deve apenas se preocupar com sua corrida. Alimentação, hidratação, trocas de roupa, medicamentos, alongamentos, psicologia, pace, descanso, é de responsabilidade da equipe, e por isso, sua escolha exige muito cuidado e qualidades únicas em cada integrante.

Priscilla Lopes, atleta que se envolve com o coração, não mede esforços, não tem limites, organização impecável no carro, encontra caminhos, incansável e pacer mais piadista;

Laura Uehara, fisioterapeuta conhecida como mãos de fada, consciente e conservadora, focada, segue a risca as estratégias e como pacer, identifica a necessidade no exato momento;

Adriele Gonçalo, ligada no 360, novata sempre disposta, organizada com o carro responsável pelas atualizações nas redes sociais e pacer mais empolgada;

Leandro Rovai, motorista, chefe gourmet (quando o cardápio permite), amigo, pacer que surpreende a cada prova que o convido (sempre acho que ele não vai aceitar o próximo convite)

Marina Mello, atleta, pacer que se doou mesmo tendo feito os 95km da primeira etapa da prova, focada, determinada a realizar o sonho da amiga que sempre a inspira ir mais longe.

Equipe montada, vamos ao desafio!

Segunda feira dia 27/06/2016 as 8h foi dada a largada para o desafio. Nos primeiros 5km do percurso tive um sinal de que eu deveria ficar mais atento do que imaginava já que uma falta de atenção fez com que atleta e pacer se perdessem, aumentando 2h a mais na programação para a nossa chegada em Passa Quatro. Broncas dadas e rota corrigida, continuamos nossa prova por entre as montanhas de Minas Gerais. O clima da equipe estava muito bom, mas muito bom mesmo, atleta sempre focada e sorridente, pacers funcionando de acordo com a programação, alimentação e hidratação impecável fez com que adiantássemos 4hs, permitindo um descanso maior em um dos locais mais bonitos da prova e mais desafiadores para chegar. A temida Cachoeira dos Garcia por volta do km 105. A vista, as cachoeiras, o esforço para subir e a atmosfera acima das nuvens compensam o desafio de encarar os aproximadamente 1800 metros de altitude.

Mais da metade da prova vencida, o clima ainda era o mesmo. Piadas, risadas, dancinhas ao som de Carreta Furacão embalaram nossa 1ª volta. Fabíola se mostrava extremamente focada, incrivelmente feliz e alegre e eu me preocupava apenas com uma dor no tornozelo que vira e mexe ela sentia. Ganhamos mais 1 integrante na equipe de apoio; um cachorro que apelidamos de Faísca nos seguiu a partir do km 150 até o final. O clima estava tão perfeito durante a prova que minha maior preocupação passou a ser que o meu novo amigo não queria comer e nem beber água, rs. 😛

Faltando 12 km aproximadamente paramos para fazer uma placa “fictícia” para que a Fa olhasse…escrevemos “Bora Fuka, faltam 12 km” e ela deu risada… Fuka foi o apelido dado pela minha esposa Marina à essa incrível atleta que mesmo sem se alimentar e hidratar bem, corre como poucos assim como um Fusca que mesmo com combustível ruim, sobe paredes, rs… por incrível que pareça, mesmo cansada, ela continuava sorrindo e nos passando aquela força que quem está ao seu redor sabe que ela tem e de sobra. Avistei o paralelepípedo, ufa! Na hora pensei que como a Laura e a Dri não fariam a 2ª volta seria bacana deixá-las correndo com a Fa para cruzar a linha de chegada. Ali, meu trabalho tinha sido concluído com sucesso e muita, mas muita felicidade. Era hora das meninas, Pri, Laura, Dri e Fa cruzarem juntas a linha de chegada.

Linha de chegada essa que ainda não tinha um pórtico montado, mas como se trata da Ultra Runner (Paola, Newton e Fernando) estavam lá emocionados segurando a faixa de chegada para que a Fa cruzasse. Corri para estacionar o carro e me lembro de esperar as meninas que vinham felizes, gritando, curtindo, sorrindo e correndo pelos últimos metros dos primeiros 235 km. Passa Quatro, chegamos! Fim da 1ª jornada e trabalho concluído.

Muitos amigos, atletas conhecidos de longa data perguntando como estava o caminho… tirando dúvidas sobre o apoio, sobre como tinha sido nossa experiência com a 1ª volta. Eu sabia que a 2ª volta seria ainda mais animada pois já estaríamos dentro da prova oficial, junto com os outros atletas. E todos poderiam ajudar e manter nossa atleta motivada e focada. Recebemos muita energia positiva e recarregamos a bateria para começar a 2ª volta. Antes da largada, fiz minha oração em frente à igreja de Passa Quatro pedindo que todos os meus atletas e amigos conseguissem vencer seu grande desafio pessoal.

Fabíola começou em ritmo forte até o km 30. Nesse trecho, até o km 95 estávamos eu e Rovai como apoio. Os demais apoios entrariam após completar a modalidade 95km. Apesar de nunca ter participado como pacer, tomei a decisão de colocar o Rovai para segurar o ritmo e economizar energia, afinal de contas, a prova começa mesmo após o km 135, onde o corpo fadiga e a mente fica responsável por guiar seus passos até o final. Essas mudanças de estratégia ao longo da prova são cruciais e fundamentais para fazer com que o atleta conclua seu desafio com sucesso.

Durante todo o percurso encontramos vários atletas que se mostravam admirados e principalmente dispostos à motivar nossa atleta e isso foi combustível para o 1º dia. A noite chegou e ao ver que a Fá estava cansada, paramos para o descanso programado em Airuoca. Foi uma parada de 3h, encontramos o resto da equipe, e sim, fiquei parado na praça da cidade esperando meus outros atletas chegarem da prova de 95 km até às 2h. Minha mente não descansa enquanto todos eles não vencem seu desafio. Nesse momento entraram na equipe minha esposa, Marina e a Priscilla que fez parte da 1ª volta, apoiou os atletas nos 95 km junto com a Laura e Adriele e voltou para nos ajudar a chegar ao final.

Na 2ª subida a linda Cachoeira dos Garcia, sentimos os ombros congelarem, mas manter o bom humor e distrair a atleta é função do pacer e lá fui eu cantando e fazendo piadas… Apreciamos mais uma vez o nascer do sol de lá de cima e seguimos lutando contra uma forte dor na canela que insistia em incomodá-la.

Seguimos em frente, ora caminhando forte e hora trotando. Ao cair da madrugada, fizemos nossa 2ª parada para descanso desta vez no carro e dormimos em 5, apertados para deixar a Fá esticada e confortável. Nessa noite, a visita dos amigos Xixo, Adriele e Ricardo Campos; esse último havia completado os 235 km em dupla; foi essencial para trazer alegria e força à toda equipe! Seguimos em frente revezando pacers, pois daí em diante deixar nossa atleta sozinha estava fora de cogitação. Faltando menos de 30km, nossos amigos atletas da família que criamos na Assessoria Carlos Mello fizeram uma grande surpresa ao aparecer no meio do caminho e emocionar nossa atleta. Confesso que me emociono sempre que testemunho a união dessa galera que nos seguiu até aqui, que se mexeu e não mediu esforços para tornar o sonho da Fá realidade. Mas voltando ao final, vi que estávamos com o tempo programado para a chegada um pouco arriscado e entrei nos últimos 30 km para tirar da Fa aquilo que tinha certeza que ela poderia dar: nada menos do que sua força.

E assim entramos em Passa Quatro 1 hora adiantados no planejamento, pedi que todos fizessem uma “asa fictícia” ao redor dela já que a o símbolo oficial da UAI é esse e acompanhei com muitas lágrimas nos olhos a nossa rainha das ultras cruzar a linha de chegada. Ela realizou seu sonho e eu senti uma realização profunda não apenas como profissional, mas como pessoa por testemunhar essa vitória pessoal dessa monstra Fabíola Otero.

UAI por Adriele Gonçalo
Equipe de Apoio

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Foi um misto de emoções. Há um ano descobri quem era Fabíola Otero, sempre a observei em provas. Normalmente, só homem na maior distância e a Fabíola. Sempre achei sensacional sua força e como motivava outros atletas. Inspiração, uma referência de corredora que desejo me transformar. Sabe quando temos uma ídola e não imaginamos conhecer?

Eu, até então só corria meia-maratonas. Em março mudei de assessoria, não fazia ideia que a Fabíola treinava funcional na mesma assessoria. O destino tem dessas de pregar peças. Conhecemos-nos em um treino de montanha. No final de maio, a Marina me chamou para ajudar a Fabiola transformar seu sonho em realidade. Inicialmente, ações de marketing para pleitear os custos de #dobraruai. Logo, aceitei e começamos as ações, foram conversas infinitas, mídia kit, posts, e-mails e a cada dia, transformava em uma amizade e aprendizado. Duas semanas antes da prova uma pessoa que iria fazer o apoio na primeira volta, por motivos pessoais, desistiu do apoio. Quando a Marina me perguntou: Você quer fazer o apoio da Fa na primeira volta? Eu, nem pensei. E já respondi, com certeza. Sou extremamente ansiosa e na largada eu estava uma pilha, larguei com ela e a instrução era prestar muita atenção nas setas amarelas. Com menos de 5k de prova, engatamos um papo e não vi uma seta, em uma bifurcação. Resultado? Nos perdemos e corremos mais de 10k, o tempo passando e nada do carro de apoio, nosso combinado era se encontrar depois de 3k. Pedimos água em uma casa e perguntamos aonde aquela estrada chegaria. Descobrimos que a estrada acabava em uma trilha para Pedra da Mina. Resolvemos voltar, nessa hora o desespero bateu, estávamos logo no começo do desafio. E se perder não estava nos planos. Encontramos o carro de apoio e voltamos para o percurso.

A Uai foi uma experiência inesquecível. Nunca gostei de acampar, ficar sem banheiro, sem secador ou lugar para dormir. Era bem fresca :P. Passamos três dias no caminho, por trilhas, serras, asfalto e diversas cidades. Sem banho, dormindo pouco, sem hora para comer.

Ao longo do caminho fomos nos dividindo entre os kms como pacer. Aprendi muito como pessoa e atleta. E o que é ser apoio. Saber motivar o outro, quando a energia acaba. Não perguntar o que o atleta quer, saber exatamente o que ele precisa naquele momento. O atleta que se sujeita a fazer uma ultramaratona, deve ter em mente, que vai doer. A dor sempre chega, a diferença é como irá lidar com ela. Os perrengues são diversos, desde muito sono, tombos, bolhas, fadiga, cansaço, esgotamento mental. A maior experiência de apoio na ultra é saber ter paciência, você vai aprender a caminhar, a se mover com um passo na frente do outro. Você vai aprender a curtir a jornada. As paisagens do caminho. O céu estrelado.

Eu morria de curiosidade de correr à noite, sempre imaginei como era ser guiada apenas pela luz da lua. A sensação é de liberdade, você e a luz da lua te guiando junto com a handlamp. Além disso, tive certeza que a prova que preenchi como sonho ao entrar na assessoria, nunca fez tanto sentido. Sou extremamente grata por ter participado da realização desse sonho. Ao Carlos Mello (que foi literalmente um pai, professor, amigo, psicólogo, comediante, dançarino) que apelidei de GPS, pois ele passou 470km recalculando rota e estratégia. Sabia exatamente como extrair nosso melhor, ali naquele momento principalmente nas dificuldades. Aprendemos com os perrengues, a ver a solução e não se concentrar no problema. Correr é ato mais simples que existe, deixar o movimento e endorfina ir completando a alma.

A prova foi um divisor de águas, me fez pensar, em como precisamos de pouco para ser feliz. Estava há bastante tempo para tomar uma decisão profissional e não conseguia. Voltei da #uai com a coragem para a tomada de decisão. Autoconhecimento e resiliência é melhor forma de qualificar uma prova de Ultramaratona.

Depois do apoio corri a modalidade de 25km fast da prova oficial, uma prova linda, com subidas generosas até km 16. Largamos na cidade de Passa-Quatro e chegamos a Itamonte.

A chegada da Fabíola foi um dos momentos mais emocionantes que já vivi, ao avistar o pórtico. Faltando poucos kms para cruzar a linha de chegada, um filme foi passando, com cada sorriso, com cada perrengue, cada pôr do sol, cada amanhecer gelado, cada caminho percorrido, cada amizade feita, cada força e mensagens enviadas. Não sabia como seria a jornada, mas tinha certeza que ela encerraria ali, cruzando a linha de chegada e deixando marcas evidentes em todos.

Um conselho? Se aventure nem que seja como apoio em uma prova de Ultramaratona.

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Amanhã tem a segunda parte, com mais relatos do pessoal que fez o apoio e da própria Fabiola, não deixem de conferir!